Depois de uma tarde de praia em pleno mês de agosto, haverá prazer maior, do que uma fatia bem fresca e sumarenta de melancia, quando se chega a casa? Se há, sou sincera, desconheço, pelo menos dos publicamente descritíveis.
Enquanto me deliciava com uma fatia da dita cuja, um pensamento tomou conta da minha meio esturrada mente por ter adormecido ao Sol e deixou-me petrificada, imóvel, sem mexer pestana a olhar para a culpada, que ao mesmo tempo era vítima da minha sede devoradora.
Revirei os olhos para ambos os lados e confirmei que estávamos sozinhas na cozinha. Double check com o silêncio que se ouvia. Confirma-se. Estamos sozinhas na casa. Olhei de novo para a melancia e lancei-lhe um olhar matador, que não deixava qualquer dúvida. Iria esquartejá-la da forma que bem entendesse e mais prazer me desse.
Anos, décadas a ouvir que a fatia teria de ser fina, que a fatia teria de ser grossa, ter cuidado a partir a fatia para não estalar a casca, redobrar o cuidado a partir a fatia para não "pisar" a polpa.
Mas falemos do pecado capital do corte da melancia: separar o "castelo" da fatia.
É algo que se nos entranha do cérebro à pele, o pânico instala-se quando vamos cortar a melancia e sentimos os olhos de quem está connosco nas nossas costas ou nas nossas mãos, esperando o nosso erro mortal para nos executarem logo ali com um: Não sabes cortar melancia! Sinto que é hereditário e atravessa os tempos e gerações.
Naquele momento tive essa consciência e aquela melancia, a própria que está na foto, erguia a bandeira de todas a melancias da minha vida.
E sabem que mais? Diverti-me imenso a cortar as fatias como bem me apetecia e que bem me soube cada uma delas.
Estava já há algum tempo naquele repasto, quando inconscientemente corto uma fatia, que até tinha um generoso pedaço de castelo para dar, mas...é verdade, era só eu e a melancia. de repente perdi a vontade de continuar a degustá-la e deixei o resto para mais tarde, com toda a certeza iria encontrá-la conforme a deixei.
Acho que o segredo está em saber cortar todas as fatias com um bocadinho de "castelo" e se uma fica grossa, a outra logo fica mais fina, parece básico mas nem sempre, ou quase nunca o é. Porque a melancia, como tudo na vida tem mais piada se for apreciada por mais do que um comensal.
Eu não estava a falar de melancias, mas lembrei-me.
Até já.